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[AS BÁRBARAS DO CENA E AS JOVENS HELIODORAS] A MOSCOU! UM PALIMPSESTO

Foto: Humberto Araújo
Foto: Humberto Araújo

{um olhar}

Antigo novo. Novo antigo. Às reescritas.

Quantas vezes precisarei reescrever o que pensei enquanto acontecia a reescrita de As Três Irmãs? Ainda não sei. Vou escrevendo e reescrevendo. Pensando e repensando. Criticando e me criticando. Exercício infindável. A revisita desse clássico tantas vezes reescrito, ou remontado, proposta por Ada Luana e Gabriel F revela um olhar aproximado e atraente ao espectador. Talvez essa seja uma ambição nossa, digo nossa para aqueles que pretendem superar a hiperdependência dos editais e encarar o desafio de pagar as próprias contas com a bilheteria.

À Moscou! é um espetáculo para o espectador. Nós, os artistas podemos gostar ou não, entretanto diante da comoção e do envolvimento que a plateia libera temos o direito de suspender nossa opinião para dar voz àqueles a quem nos interessa alcançar. Com recursos metalinguísticos. “neo-naturalistas”, humor pop e os tão conhecidos dramas burgueses e aristocráticos, comuns em seriados e telenovelas, nesse caso cabem apenas as com um acabamento acima da média. Não se leia telenovela como ofensivo, como é costumeiro entre artistas pesquisadores e eruditos. Telenovela aqui é um elogio. É o estilo dramatúrgico mais espectado no Brasil. Essa constituição leva o espetáculo à uma dimensão possível de fazer um teatro que as pessoas querem assistir. E não apenas uma pesquisa, uma experiência, uma proposta dramatúrgica. À Moscou! é tudo isso somado à identificação que o público assume ao assistir.

É de fundamental importância pensarmos para onde encaminhamos o teatro que nos precede. O que fazer com nosso passado? Essa é uma questão que as personagens e atrizes tocam o tempo inteiro na ficção e na realidade. O que fazer com o que ficou para trás, com o que não interessa a ninguém, com o que está obsoleto, em degredo. Essa obra se propõe a isso de uma maneira legítima e autoral com um super acabamento e cumprindo com altíssimo nível o que se propõem a fazer. Tudo é muito impecável e isso também é bom de presenciar, já que a propriedade dos dias de hoje é o fazer do jeito que dá por tanta escassez que nos cerca e compõe nossas dramaturgias de criação atual.

Raro ver um teatro chique, grifo essa palavra, e bem executado.

Como problematização ao espetáculo sugiro um investimento maior no caráter coletivo, social e político como mais um meio de aproximação ao espectador. Quando a dramaturgia se detêm em passagens rotineiras e questões que tratam exclusivamente do universo psicológico e da intimidade da história perdemos de vista o potencial político e transformador de Tchekov e nos mantemos apenas no riso frouxo das piadas.

A construção plástica que se ergue nas últimas cenas para o desmoronamento metafórico do passado sobre nós, espectadores envolvendo som, imagem, espaço e luz é o ponto mais forte em termos sensoriais e revelam a autoralidade única desse espetáculo.

Não apenas à Moscou, mas a muitos outros lugares essa interrogação gigantesca: Que fim damos a essa memória que é o Teatro, essa arte forte e esquecida, nos tempos da netflix?

Leonardo Shamah, performer, pesquisador, diretor e provocador

 

{um outro olhar}

“Papiro ou pergaminho cujo texto primitivo foi raspado, para dar lugar a outro”, assim o Google define palimpsesto. Aquilo que não é mais o que já foi, apesar dos resquícios permanentes. Essa livre adaptação de “As Três Irmãs” de Anton Tchekhov se propõe a atualizar o clássico texto, mas ainda girando em torno do principal conflito proposto pelo autor: o desejo de voltar para Moscou. De cara, o impacto visual (da cenografia e figurinos, concebidos na finesse pelo Roustang Carrilho!!!) foi o que me arrebatou nas primeiras cenas. As muitas samambaias, o pássaro vivo no ombro da atriz, os ambientes, o guarda-chuva que leva sua chuva e os objetos compondo uma outra realidade, ressignificando como pouco vi antes o Teatro da Caixa Cultural.

Fico me questionando, se todas tivessem construído a dramaturgia (com exceção de Ada Luana, que a assina junto com Gabriel F.), se a intimidade com as palavras seria mais estreita, sem dar brecha para dúvida sobre a espontaneidade proposta pelas frases. Essa dúvida me rondou inclusive nos momentos de quebras de 4ª parede, onde se joga com a voz da atriz discursando sobre a personagem.

Isso, contudo, não influencia nas boas imagens e estados construídos pelas atrizes. Nem tampouco na condução do enredo. As senhoras atrás de mim cochichavam como se estivessem vendo uma trama de novela das nove. Essa aproximação contemporânea do clássico é necessária, mas pode facilmente escorregar ao terreno do simplista e da vulgarização de um discurso mais complexo.

Preciosos os momentos em que cantam juntas as três irmãs, sou tragada não só pelo virtuosismo, mas pela inteireza com que seus olhares preenchidos de imagens nos comunicam muito. A estrutura dramatúrgica é bem desenhada e linear, enquanto espectadora me sinto guiada temporalmente o tempo inteiro. No realismo pretendido, as ações ainda aparecem vazias, sem propósito, o que reduz sua força. O desenho de luz (de Diego Bresani) é coluna vertebral para essa realidade cotidiana e a potência de seus ambientes. Ainda há muita potência escondida entre as samambaias d’A Moscou.

Larissa Souza, integrante do grupo de pesquisa Jovens Curadores

 

 

Publicado em 19 de setembro de 2017