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[CRÍTICA] [MATEUS DA LELÉ BICUDA] Pequenas ações não são ações pequenas

 

Foto: Thiago Sabino

28 de agosto de 2018.

Chico Simões,

Depois de assistir você em Mateus da Lelé Bicuda (DF), no Lar dos Velhinhos Maria Madalena, fiquei refletindo sobre a relevância das ações de descentralização do Cena Contemporânea 2018. O teatro, ainda que a gente se esforce, muitas vezes continua sendo algo elitista. E que dificuldade temos de nos desvencilhar desse status tão diferente da origem das artes cênicas, de que nasceram de forma concomitante, em várias partes do mundo, a partir de manifestações cênico-religiosas e populares.

Seu trabalho se debruça sobre as manifestações populares no Nordeste e óbvio que isso me afeta porque há em mim um atravessamento empático já que o Ceará é meu lugar de origem. Como nativo, posso destacar as referências que percebo de sua obra com o trabalho de Augusto Bonequeiro (CE), um dos ícones na manipulação de bonecos no país; com a turma da Carroça de Mamulengos (CE), família carioca hoje radicada no Cariri; e com o humor leve, desavergonhado e rasgado que paira no jeito de ser do cearense.

Obviamente que um festival não pode dar conta de todas as necessidades e carências que as políticas públicas culturais possuem. Porém, é importante que esse demarcador social, que apresenta trabalhos de qualidade em lugares como asilos, praças e regiões carentes, permaneça – inclusive como uma resistência à arte que é naturalizada como bem privado da elite. Ao mesmo tempo em que a gente deve demandar que o Cena continue com suas contrapartidas, pulverizando obras pelo Distrito Federal, temos que brigar para que uma arte descentralizada não dependa somente de um evento anual – e as experiências dos editais do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) têm levado isso em consideração fruto de nossa percepção e luta enquanto artistas.

Em Fortaleza, o grupo cearense Teatro Máquina realiza o evento bimestral “Pequenos Trabalhos Não São Trabalhos Pequenos”, fazendo de sua sede um espaço cultural desburocratizado, onde artistas diversos apresentam suas obras em processo ou “finalizadas” e dialogam sobre elas. A pequena ação não diminui a importância e o impacto dela para fortalecimento das linguagens, além de dar acesso ao público a experiências culturais gratuitas. É pouco, mas é alguma coisa. Assim como as obras do Cena que saem do plano piloto. É pouco para toda a demanda de um DF imenso e carente, mas precisamos dar ênfase à ação, que carrega sua grandiosidade.

Nicolas Bourriaud, em Estética Relacional (1998), propõe que toda arte é fruto de uma relação com o espectador, que não é passivo diante do que é apresentado. E não há como negar a sua disponibilidade, Chico, para o improviso a partir do que o público lhe oferece como material dramatúrgico. As palavras da sua persona Mateus, junto aos dizeres de todos aqueles idosos no Lar Maria Madalena, foram enriquecendo sua cena, sua estética do reisado, sua força colhida dos mestres da cultura popular. Tudo isso emaranhado numa rede de afetos que se potencializa à medida em que você abre espaço diante de um público com tanta experiência de vida e com tanto desejo de fala.

Cordialmente,

Danilo.

*Danilo Castro é ator, graduado em Artes Cênicas (IFCE); jornalista, graduado em Comunicação (UFC), mestre em Artes cênicas (UnB) e autor do blog de críticas (www.odanilocastro.blogspot.com).

Publicado em 28 de agosto de 2018