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[CRÍTICA] [PRA FRENTE O PIOR]

Foto: Thiago Sabino

Nem sempre a certeza é a melhor opção. A Inquieta Cia, de Fortaleza (Ceará), optou por criar um teatro performático, sem uma figura central na criação e sem uma narrativa linear. Particularmente, me encontrei perdida com a encenação, tive dificuldades para acessar o espetáculo e me envolver com as questões que pudessem ser colocadas em cena. O trabalho físico do elenco é intenso. Da plateia, acompanhamos um pequeno grupo de corpos que pulsam e se deslocam de forma constante por 45 minutos. No palco, suor, barulhos, gemidos, pés, saliva e um pouco de vômito. Na cadeira, sinto incômodo. Talvez seja essa a provocação.

A ideia é que a criação aconteça sem a figura de um encenador, ou diretor, dramaturgo ou cenógrafo. O espectador seria, assim, co-criador da montagem. No entanto, percebo que parte do público se desconecta. Em cena, corpos exaustos pelo movimento e um eterno vai e vem. Encontro neste ponto uma relação com experiências que criam um diálogo. A transição constante, a necessidade de seguir em frente, os tropeços, a exaustão, as ligações humanas e os pés cansados. Essas conexões me despertam.

É possível enxergar, sutilmente, a expansão de diferentes tipos, personagens que se diferenciam, figuras sociais.

O espetáculo tem ares de exercício cênico e experimentação. A montagem parece se propor a permanecer em estado aberto, pronto para se colocar em ponto de angústia, empatia ou fuga. A sinopse diz: “Pessoas cavando seu próprio fim serão como pessoas cavando o fim. Passo a passo, um coletivo arranha um percurso adiante”. Talvez seja este o ponto. A repetição angustiante que se desloca para o próprio cotidiano, um eterno repetir de caminhos. Em meio à exaustão o grupo permanece conectado pelas próprias mãos.

A companhia tem interesse em criar ações prontas para incomodar e mobilizar a possibilidade artísticas a partir de outros contextos. Sendo assim, o espetáculo cumpre o seu questionamento. Depois de sair do teatro, no distanciamento das leituras e diálogos pós-peça, consigo compreender melhor a sensação de incômodo. Não cabe a mim julgar como bom ou ruim, proveitoso ou pretensioso, vazio ou questionador. Mas cabe a mim manter-me aberta a novas proposições e me permitir dialogar com o que, de início, não me afeta. Afinal, a criação existe entre esse princípio.

Isabella de Andrade.

* Isabella de Andrade é escritora, atriz e jornalista, graduada em Comunicação Social (UnB) e Artes Cênicas (UnB). Publicou o livro Veracidade (2015) e participou da antologia poética Casa do Desejo – Literaturas que desejamos, lançada na Flip em 2018. Idealizadora do projeto oCiclorama (www.ociclorama.com)

 

Publicado em 3 de setembro de 2018